15.5.06

MOCINHA

Kelly Guimarães Moreira

Eu não sabia quando ia começar, a gente nunca sabia. Vivia espera do
inesperado, vivíamos.
Uma vez uma de minhas amigas me deu a idéia, daí em diante, mesmo nos dias maIs abafados de verão, tinha sempre comigo uma blusa, um moleton, porque vai daí que acontece um desacontecimento, era só amarrá-la na cintura e caminhar plena porta afora, passando desapercebida pela multidão.
Quando aprendi a contar os dias a situação ficou menos aterrorizante, mas havia ainda outro incômodo: como esconder o negócio no meio das minhas coisas-cadernos-livros-mochila, e o pior, como sair da sala de aula levando comigo, sem que os meninos, aqueles demônios, vissem? Sem contar que eles tinham aquela curiosidade, mania doentia de ficar olhando pra bunda da gente tentando descobrir se “tava ou não tava”.
Enfim aquela era a mais sublime experiência de todo meu ser... a transformação da lagarta em borboleta, a menina se tornando uma mulher, e meu irmão indo e vindo pela vida sem se preocupar com nada, enquanto eu, miúda ainda, ainda desinformada, ainda não habilidosa na arte e no manuseio, passava pelo vexatório enfadonho de responder sempre a mesma e tola pergunta: “você já é mocinha?”