DEPOIS DO COMEÇO
Kelly GuimarãesNo começo é assim, já dizia minha avó, dói, a gente sofre, mas depois... a gente se acostuma. Depois a gente se acostuma, mas hoje não!Caminho por esta calçada sem entender. São casas de portãozinho baixo, janelas de madeira, um cão cheira o poste, uns matos crescem por entre o concreto que rachou. Hoje não quero pensar nisto.Descendo a rua vou me aproximando do centro, vejo a praça com sua velha igreja. Um dia a gente está no topo, no auge, feliz, amado, e noutro está decadente, um nada vagando a superfície da terra. Os bancos estão cheios de cocô de pombo. Nossa! Tem tanta gente no mundo! Passo por muitos rostos, são formas, tamanhos e cores. O que elas estão pensando agora? Deu um vazio na minha mente, o que aconteceu? Saí de lá sem entender nada, em que instante tudo desabou e eu não percebi? Foi quando olhei pro lado ou quando fechei os olhos? Quase atravessei a rua na frente dos carros, nem vi, em que eu tava pensando mesmo? Ah sim! As pessoas, são tantas no mundo...Vou passar naquele bar e tomar um café. Mas não era café o que eu queria.E eu queria o quê? Queria esquecer, entender, fugir, queria não dar a mínima. Minha vizinha está de novo no portão, tem mais nada pra fazer na vida esta mulher? Boa tarde! Boa tarde! Tá com cara de quem pegou gripe. É , é gripe...E eu sou feia, burra, sem assunto, o quê? Se me dá licença... Toma um chá de limão com mel, ajuda. Ah sim! Obrigada. Depois de um tempo a gente se acostuma, mas hoje?Entro, sento, levanto, limão com mel, sento, um banho, depois, essa casa tá precisando de uma pintura, deito, os sapatos, a bolsa. Vou trocar as cortinas, mudar a cor da estampa. Quantas pessoas no mundo sofrem como eu agora? E eu sofro pelo quê? Eu sofro? Um dia a gente está no topo.Um banho e um café, depois, e depois penso no jantar, tá quase na hora da novela.No começo é assim, depois a gente se acostuma.


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