O CORPO QUE CAIU
Diogo Cardoso dos SantosO canto da parede do quarto, numa fresta entre o guarda-roupa e a parede, era seu lugar. Seu até que alguém colocasse algo ali. Na verdade, era um desabitado.
Em algum momento da sua vida fez parte de um círculo social onde era chamado de amigo. Ele não se lembra bem, e hoje não sabe nem imagina o que seja esta palavra. Nem pensa nisso. Simplesmente não pensa. Seus olhos ficam vidrados ávidos num ponto vazio no espaço, que facilmente acredita-se que ele avista o chão.
Chão. Foi ele.
Sua boca adormecida era uma casa abandonada, onde reinara o silêncio. Saíam dela apenas heras de líquido transparente e viscoso.
Amigos. Se ele tivesse consciência do que era essa palavra hoje inexistente a si, a chamaria de ausência. Sua única companheira.
O que é o homem, quando sua única posse é o corpo? Antes, quando tinha algo além, era cercado de outros corpos, que simpatizavam com ele. Ele até chegou a acreditar na palavra amizade. Não, mais que isso, era uma família que ele possuía. Fora e dentro da sua casa.
Mas agora, medo, que palavra o salvaria? Ausência... Alguém em plena sanidade não arriscaria chamá-lo de palavra. Guarda-se ela, mudo dentro de si. Ausên... Ele, que já não pensava, teve a ousadia e a coragem de conviver com essa in-palavra. Pois com ela não se escolhe, o convívio acontece.
Quantos corpos passaram por sua vida. Quantas vidas compartilhadas. Solidões acompanhadas. Agora sem companhia nenhuma sua solidão à mercê da ausência. Na derrelição, no abandono. Num canto que não lhe pertencia seu último abraço foi dado a um chão. Como um beijo de boca. Um encontro precipitado há anos desde o primeiro beijo naquele líquido transparente. Este não era viscoso.
O beijo da morte. O chão. Foi ele.
Tirou-lhe todos os corpos de sua vida. O que é o homem quando sua única posse é o corpo! E o que é do homem quando nem seu corpo lhe pertence?
Uma fresta. Um espaço vazio entre o guarda-roupas e a parede.


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