29.6.06

BOLO DE FUBÁ

Kelly Guimarães


Esta é uma história baseada em fatos reais, tanto é que para proteger a identidade das personagens os nomes foram trocados, então qualquer semelhança terá sido fato.
Foi assim, Laura; Laura, loira, jovem, bem empregada, solteira sem namorado, acaba de pôr os pés em casa quando chega Marta; Marta, morena, jovem, empregada, solteira, indo por aqui e acolá de vez em quando, entendem?
- Oi Laura, vamos fazer um café.
Se precipita porta adentro, já vai à cozinha, põe água no fogo. Trazia um bolo de fubá para a amiga.
- Laura, nem te conto!
Ah meus caros! Não se enganem, sempre que alguém diz “nem te conto”, não só conta, como tempera sutilmente com uma pitada de desdém e malícia.
- Encontrei a Verônica hoje, tá bonita, magra, tingiu os cabelos...
E blá, blá, blá, essas coisinhas de moda, estética e afins.
-...Ela vai se casar.
Vejam que olhar felino é lançado sobre Laura, esta que por sua vez prova um gole do café.
- É? Com o Carlos?
- Com o Carlos!!!
Mas agora ouçam como Marta diz “com o Carlos”, assim deste jeito, três pontos de exclamação e as palavras saindo-lhe bem articuladas para que não hajam dúvidas de que é com o Carlos, pois o tal sujeito, senhoras e senhores, como é certo que já se deram conta é um ex de Laura.
- Que sejam felizes. Açúcar ou adoçante?
Neste momento Laura faz aquele ar de “tô cagando e andando pra eles”.
- Açúcar. Isto mesmo Laura, assim é que se fala, se não deu certo com você paciência, afinal, pra cada panela velha existe uma tampa torta, e o Carlos, meu bem, não era a tua.
- Bolo, Marta?
- Sim, uma fatia.
Laura e Marta se conheceram ainda crianças, as mães trabalhavam juntas, e uma freqüentava a casa da outra por ocasião das festinhas de aniversário, vai daí que se tornaram amigas. Moravam no mesmo prédio.
- Olha, posso falar uma coisa?
“Posso falar” não é uma pergunta para ser respondida, quando dizem isto, o que as pessoas querem mesmo é palpitar sobre sua vida.
- Eu acho que você devia dar uma mudada, você anda freqüentando uns ambientes tão estranhos, eu sei que você gosta, mas eu acho que estes teus amigos intelectuais, bem com todo respeito, mas eles são um saco!
Laura enquanto leva uma fatia de bolo até a boca se pergunta por que Marta está ali, sentada na sua cozinha, tomando do seu café. “Como foi mesmo que nos conhecemos?...”
- Você sabe né? Eu não gosto...
Gosta sim Marta! Admita! Você gosta! Esqueçam isto leitores, risquem este comentário a caneta. Estou só relatando os fatos.
- ... Mas você sendo minha amiga, vou dizer: abre o olho Laura!
- Marta, como foi que nos conhecemos?
- Nossas mães, lembra? Fui ao teu aniversário de dez, não, doze anos. Eu tinha dez.
Marta faz referência à idade intencionalmente para que fique registrado que ela, é mais nova que Laura, a amiga.
- Percebo que você se diverte pouco, fica nestas reuniõezinhas, com esse pessoalzinho metido a besta, saia Laura, saia pra dançar, beber, curtir a vida...
- Mais bolo? Café?
Marta tem um não sei quê de invasiva, espalhafatosa, mal-educada. Isto não sou eu que digo, mas é o que Laura reflete agora. “O que eu gosto nela?”
- Sabe que vou viajar mês que vem? Siiiiim, vou fazer uma viagem, descansar, conhecer novos lugares, gente nova. Por que você não faz uma viagem?
- Tem erva-doce no bolo né?
- Tem. O que você anda fazendo com seu dinheiro, menina? Por que não economiza pra poder fazer como eu, invista em você, presenteie-se com uma bela viagem.
“Do quê ela está falando? Aliás, quem é esta pessoa sentada bem à minha frente?”
- E tem mais, vou aproveitar e dar uma mudada no visual, fazer umas luzes, uma progressiva, e mais o que me der na telha. Você devia fazer o mesmo.
Pois assim é, algumas pessoas entram na vida da gente, não se sabe como, e vão ficando não se sabe porque.
- Bem, querida Laurita, a conversa ‘tá boa mas eu tenho mil coisas pra fazer, não posso ficar aqui de papo com você.
Ela se despede, beijinho, abraço de ombro, e antes que entre no elevador Laura dispara:
- Marta, só pra você saber, eu nunca gostei de bolo de fubá, principalmente com erva-doce.
Ao que Marta responde:
- Eu sei.