19.5.06

DEPOIS DO COMEÇO

Kelly Guimarães

No começo é assim, já dizia minha avó, dói, a gente sofre, mas depois... a gente se acostuma. Depois a gente se acostuma, mas hoje não!Caminho por esta calçada sem entender. São casas de portãozinho baixo, janelas de madeira, um cão cheira o poste, uns matos crescem por entre o concreto que rachou. Hoje não quero pensar nisto.Descendo a rua vou me aproximando do centro, vejo a praça com sua velha igreja. Um dia a gente está no topo, no auge, feliz, amado, e noutro está decadente, um nada vagando a superfície da terra. Os bancos estão cheios de cocô de pombo. Nossa! Tem tanta gente no mundo! Passo por muitos rostos, são formas, tamanhos e cores. O que elas estão pensando agora? Deu um vazio na minha mente, o que aconteceu? Saí de lá sem entender nada, em que instante tudo desabou e eu não percebi? Foi quando olhei pro lado ou quando fechei os olhos? Quase atravessei a rua na frente dos carros, nem vi, em que eu tava pensando mesmo? Ah sim! As pessoas, são tantas no mundo...Vou passar naquele bar e tomar um café. Mas não era café o que eu queria.E eu queria o quê? Queria esquecer, entender, fugir, queria não dar a mínima. Minha vizinha está de novo no portão, tem mais nada pra fazer na vida esta mulher? Boa tarde! Boa tarde! Tá com cara de quem pegou gripe. É , é gripe...E eu sou feia, burra, sem assunto, o quê? Se me dá licença... Toma um chá de limão com mel, ajuda. Ah sim! Obrigada. Depois de um tempo a gente se acostuma, mas hoje?Entro, sento, levanto, limão com mel, sento, um banho, depois, essa casa tá precisando de uma pintura, deito, os sapatos, a bolsa. Vou trocar as cortinas, mudar a cor da estampa. Quantas pessoas no mundo sofrem como eu agora? E eu sofro pelo quê? Eu sofro? Um dia a gente está no topo.Um banho e um café, depois, e depois penso no jantar, tá quase na hora da novela.No começo é assim, depois a gente se acostuma.

15.5.06

QUASE HORAS

Kelly Guimarães Moreira

Vinte pras sete. Dou o nó na gravata, visto o paletó. É tudo. Já são quase horas. Catarina já trocou de vestido três vezes.
- Meu bem, este ficou bom em você.
- Não ficou não!
- Então por que você comprou?
- Acho que... este aqui.
- O que você achou de ontem?
- Meus brincos azuis, onde estão meus brincos azuis?
- Acho que poderia ter sido mais ousado, menos prolixo talvez.
- Se eu não achar os brincos azuis vou ter que trocar de vestido.
- Mas veja, se a minha apresentação agradou, estou no jogo. Chego à diretoria em dois tempos.
- Ah não! O brinco não combina com o esmalte.
Sete e vinte e três. Catarina anda pelo quarto de calcinha e sutiã.
Que tal aproveitarmos o momento e planejarmos uma viagem?
- Me ajuda aqui, esse ou este?
- Este.
- É? Mas gosto tanto desse...
- Então esse!
- Poxa, mas assim você não me ajuda mesmo!
Sete e quarenta. Saio pela casa, fecho as janelas, as portas, o gás, a cara.
Catarina já desfiou a meia, já borrou o esmalte, já passou perfume três vezes.
- Meu bem, sabe que horas são?
- Os cabelos: presos ou soltos?
- Soltos.
- Tá muito quente, vou prender.
Catarina prende os cabelos, retoca a maquiagem, checa os brincos. Eu adoraria atirar todos os calçados dela pela janela, depois de arrancar o salto de cada um deles...
Ela pega uma bolsa, não gosta. Pega outra, gosta. Se olha no espelho, retoca o batom.
.... e enfiar cada uma de suas jóias na privada, acionando a descarga lenta e longamente.
Solta os cabelos, confere o decote, tropeça num dos doze pares de sapatos espalhados pelo quarto.
.... quero cortar em tiras bem fininhas todos seus vestidos e atear fogo em seu cabelo.
Puxa a meia fina, checa o esmalte, se olha novamente no espelho, borrifa mais perfume.
.... odeio você Catarina, odeio você e a tua coleção de batons, odeio teus perfumes caros, odeio teus cremes e a porra do seu estojo com quarenta e duas cores de sombra.
De repente ouço. Corre-me uma onda de calor que caminha freneticamente pela minhas vértebras até parar na nuca, é um êxtase, é quase convulsivo.
- Estou pronta. Podemos ir.
Respiro.
Oito e trinta e nove. Catarina está finalmente pronta... e está linda!
Podemos ir.

MOCINHA

Kelly Guimarães Moreira

Eu não sabia quando ia começar, a gente nunca sabia. Vivia espera do
inesperado, vivíamos.
Uma vez uma de minhas amigas me deu a idéia, daí em diante, mesmo nos dias maIs abafados de verão, tinha sempre comigo uma blusa, um moleton, porque vai daí que acontece um desacontecimento, era só amarrá-la na cintura e caminhar plena porta afora, passando desapercebida pela multidão.
Quando aprendi a contar os dias a situação ficou menos aterrorizante, mas havia ainda outro incômodo: como esconder o negócio no meio das minhas coisas-cadernos-livros-mochila, e o pior, como sair da sala de aula levando comigo, sem que os meninos, aqueles demônios, vissem? Sem contar que eles tinham aquela curiosidade, mania doentia de ficar olhando pra bunda da gente tentando descobrir se “tava ou não tava”.
Enfim aquela era a mais sublime experiência de todo meu ser... a transformação da lagarta em borboleta, a menina se tornando uma mulher, e meu irmão indo e vindo pela vida sem se preocupar com nada, enquanto eu, miúda ainda, ainda desinformada, ainda não habilidosa na arte e no manuseio, passava pelo vexatório enfadonho de responder sempre a mesma e tola pergunta: “você já é mocinha?”