UMA HISTÓRIA COM COMEÇO E MEIO
Kelly GuimarãesSaía de casa apressado, não que estivesse atrasado, é que não podia ficar ali e esperar, esperar os minutos e a hora. As coisas não são feitas cada uma sua vez, as coisas são feitas começadas todas, umas pelo meio daquelas outras inacabadas, e agora: sair.
Por invadir a rua ansioso e distraído, deixaria para trás algo que se e quando percebesse ausência ligaria ao pai pedindo que levasse. Nenhuma novidade, a vida corria assim, gavetas e portas abertas, roupas espalhadas pelo chão, livros e cadernos embaixo da cama, em cima. Seu quarto: o mundo, o caos, achava nada por ali, e tudo quanto possuía com pouco tempo deixava de ter, quebrava, rasgava, furava, manchava, queimava, dava e perdia. Pela casa os vestígios de sua existência, tênis, bolinhas de folhas de papel, desenhos, xícara, boné, revistas, brinquedos, pontas de lápis, migalhas.
Quando presente o caos eram as palavras, vinham todas de uma vez, os olhos piscando, o peito arfando, a garganta contraindo-se sem ar, e o raciocínio se atropelando, fugindo, inventando. As pernas sempre agitadas querendo correr, a mãos pegar, pegar e desfazer, destruir para deixar que seja de novo outra qualquer coisa diferente da anterior.
Na mente bailando vontades, de ter, de ser, comer, sair, subir, falar. Vontades que negadas revelavam infinita insatisfação, devolvendo ao mundo choro, porta batendo, fotos rasgadas, e o mesmo pedido sempre, por horas insistente, “eu quero”, “não quero”, “por quê? ”, “por que sim?”, “por que não?”.
A cabeça não pára, a nada se apega, a pouco se entrega, não aprende a ler, não aceita regras, não as entende, age por impulso, faz tudo por instinto, franze a testa, mostra os dentes, cerra os punhos e chora. Não dorme, come muito, fala muito, deseja. Em volta de si sempre o som, de mãos, batuques, voz, onomatopéias. De repente uma ausência, olhos de infinito olhar, não quer nada, esvaziou-se.
Há predições que afirmam: será socialmente instável, projetos serão vulcões, que ao tempo, pouco, será lava rija, fria e negra. Empregos, carreiras, amores, tudo pelo caminho. Toda família tem a sua ovelha negra, bicho solto, ele a nossa?
Três anos apenas, agora sete, doze e pela vida afora a constante inconstância, corpo presente em mente flutuante que navega... por onde?
Hei de negar profecias. És grande, e serás todo. Sua alma em desordem, em colapso, em ainda lapsos de vazios, sobrevoa a atmosfera de todos nós, vindo em pouso urgente num mundo que não parou para ele divagar.


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